12 março 2008

A beleza das pequenas equipas

Ontem, vindo do nada, disse-me o nosso amigo Kosmic: "Pá, pequenas equipas de desenvolvimento é que é fixe, hoje motor, amanhã lógica, depois efeitos. Estamos sempre a mexer e a aprender coisas diferentes."

Se calhar não foi bem isto que ele disse, mas foi parecido. A verdade é que em pequenas equipas com poucos -às vezes nenhuns- recursos mas com objectivos definidos, esta sensação de aprendizagem e descoberta constantes são grande factor de motivação.

Eu próprio divido-me em múltiplas tarefas, múltiplos contextos e se ao fim da semana o cérebro já está a pedir descanso, no dia-a-dia não sinto cansaço. É o factor emocional e motivacional do trabalho a demonstrar-se.

Do outro lado desta corrente de opinião encontra-se quem tem a visão do costume do gamedev. Vou ficar rico a trabalhar numa bruta empresa, num bruto jogo, com bruta tecnologia... sem uma exacerbada dose de sorte e de timming, quem tem esta visão ou não entra no mundo do gamedev ou se entra vai andar anos a fazer trabalho desinteressante.

Como é que eu sei? Nem vou falar de quem tem o sonho de fazer o próximo grande jogo com três pessoas porque isso é lírico, vou falar da realidade empresarial nua e crua. Todas as grandes empresas gamedev ou não e com honrosas excepções, operam da mesma forma. Entramos numa empresa com cinco filiais, cada uma com oito departamentos, cada departamento com vinte empregados, dos quais doze são rotativos e nós somos um deles. É claro que com empenho, trabalho e presença de espírito conseguimos galgar as politiquices e com a actual rotatividade, podemos ganhar o nosso lugar em três ou quatro anos. Se formos competentes e nos mantermos na mesma empresa isto é possível.

Mas o que é que isso nos custou? Qual é factura? Temos uma vida interessante? É isso que nos move? Acredito que a rotatividade do mercado de trabalho na industria dos videojogos se dá porque esta se alimenta dos sonhos dos jovens. Aqueles que sobreviveram a travessia do deserto já lá estão e não há nem vai haver espaço para que do lugar que se atinge nesses três anos se possa finalmente atingir o nosso sonho. Como em tudo, à claro excepções.

Podemos aprender desde já que não há jogos diferentes, há sim empresas diferentes. Quanto mais trabalho mais estou convencido que não há jogos diferentes pela tecnologia ser diferente. Um jogo é um jogo e nesse caso, aprende-se mais, faz-se mais, evolui-se mais numa equipa pequena. Quando todos estão próximos, aprendemos o que temos para fazer e o que é que influenciou a decisão de alguém ao nosso lado, mesmo que não tenha nada a ver com o que estamos a fazer agora. Por estas razões e tantas outras, o modelo "Small is the new Big" expande-se como fogo na palha. Milhares de profissionais com anos de gamedev em multinacionais estão a sair para criar os seus próprios estúdios, uns de som, uns de desenvolvimento, uns de arte, uns de tecnologia and so on. Está a criar-se uma enorme rede de contactos que motivam já sub-contratações.

A isto junta-se o facto de que o mainstream dos jogos está a fazer um shift para o público em geral. Afinal, a música não é só apreciada por melómanos, o cinema não é só apreciado por cinéfilos, logo é natural que o jogos não sejam só apreciados por gamers.

Trabalhar numa equipa pequena com objectivos bem definidos é mais produtivo, mais divertido, mais rentável e mais próximo do verdadeiro sonho do gamedev. Da próxima vez que pensarem querem é desenvolver tecnologia ou conteúdos para uma das grandes, pensem que vivemos em permanente mudança e que a mudança de hoje se encontra nas pequenas equipas.

7 comentários:

KosmiCKhaoz disse...

Corrijam-me se estiver errado mas, tenho a sensação que o conceito de trabalhar em GameDev que deu origem ao sonho de trabalhar nas "grandes", que muitos hoje têm, foi formado há uns anos atrás. Nessa altura as "grandes" eram constituídas por pequenos grupos de pessoas (em projectos diferentes), muitas delas tinham o espírito "rock'n'roll" (adaptado ao geekismo da altura). Nessa mesma altura, e porque assim acontecia, nasceu também a ideia de que os programadores iriam dominar o mundo!

Se formos a ver bem, e se se confirmar a minha suspeita, as pequenas empresas estão realmente muito mais perto desse "sonho" e as grandes tornaram-se empresas como qualquer outra na área das tecnologias...

just a feeling... ;)

Vlad disse...

Por acaso acho que esse sentimento apareceu com os "informáticos" e não particularmente com os videojogos, mas os videojogos são parte das TIs.

Raistlin disse...

Tunga! Mesmo nas nalgas.

Ha umas 3 semanas que ando a pensar bastante nisto e concordo plenamente com o texto. Claro que me falta experiencia e etc, a minha opiniao conta menos.

Eu sinceramente acho que no meu caso o que me interessa nao e fazer parte de uma equipa das grandes, e mesmo desenvolver trabalho para um ou outro IP.

(teclado ingles = acentos--)

NunoPinheiro disse...

Epah eu quero ir trabalhar:P
Eu por acaso tenho o sonho das grandes empresas, tenho um certo fetiche por Square Enix e Level 5. A segunda pelo facto de ter o potencial da SE mas cria muitos mais IPs.
De qualquer modo sem duvida que quero começar em Portugal. Numa pequena ou grande empresa. Mas também sou tão novinho...ainda acabo a fazer software para gestão de empresas..

Mestre do pito disse...

está na lei nao explicita do gamedev internacional, que assim que uma empresa atingir os 7 digitos deve fazer o "next-gen-mutant-kittie-invade-cyberpink-bunny's-planet-4: the return again"

quem nao obedecer a esta lei arrisca-se a ter um futuro prospero e relaxado, coisa que os grandes nao querem! por isso, assim que tiverem guito, esbanjem-no em algo que nao vai dar lucro nenhum, para ficarem na penúria!

amén

"C.G." disse...

Coincidência. Hoje estava a reflectir sobre uma questão dos estágios no meu curso e mestrado, em que denoto que os professores estão mais interessados em realizar parcerias com as grandes empresas, do que com as mais pequenas e ainda em desenvolvimento.

Há também as manias do estatuto social e essas tretas, em que a mãezinha diz "Porque é que estás a trabalhar nessa pequena empresa, quando podias estar numa multinacional, ganhares mais dinheiro, e seres mais importante?!". Há que ter ambições para ir mais longe, mas há que igualmente reflectir se vale a pena ganharmos o dobro do dinheiro, mas nem por isso sentirmos satisfeitos com a nossa rotina.

zeroshift disse...

Pequenas equipas, motivadas, fazem maravilhas.