28 abril 2008

Confusão neste meio-ambiente

Há coisas que eu não entendo, que me fazem confusão. Não espero que toda a gente seja como eu, até porque seria um mundo feio, mas há comportamentos pressupostos que me afligem os neurónios de tal maneira que me descompenso.

Se calhar sou eu que estou velho e rezingão. Se calhar até sou eu que estou errado, pelo menos é assim que me sinto. Há dias em que olho à volta e tenho o passo trocado com uma data de gente, diria mesmo que toda a gente e não consigo convencer-me que estou errado.

É do meio-ambiente. Aqui é diferente. Aqui é suposto tudo se atrasar e isso faz-me muita confusão. Aqui é suposto ser feito em cima dos joelhos e isso faz-me ainda mais confusão. Aqui é suposto ninguém saber e ninguém ser responsável, é suposto "depois ver-se" sem se entender as complexas alterações de tempo e dinheiro gasto que isso implica.

Este meio-ambiente é claramente diferente... aqui diz-se sempre "claro que sim" e depois o tempo passa e não há concretização, pior... não há justificação.

Digam-me o que disserem, andem todos com o passo trocado comigo, não quero saber. Este meio-ambiente é demasiadamente novo para sequer entender a gravidade, as consequências das suas acções ou sequer o que é normalidade e ética de trabalho. Podem vir sobre mim as desculpas que quiserem, os infortunios pessoais e os consolados "eu entendo porque é que correu mal", porque isso não vai afectar positivamente o futuro de ninguém se não servir de lição.

De onde eu vim, quase tudo aqui é inaceitável. A falta de profissionalismo de pessoas contratadas, a falta de visão do sangue novo, a incapacidade de descernir a diferença entre qualidade técnica e qualidade pessoal por parte dos profissionais, a mania da grandeza de quem ainda não fez nada, ou seja, todos nós.

É verdade que por ser um meio-ambiente novo, é possível melhorar, mas se todos estão com o passo errado, por onde é que se começa? Quem é que está disposto a dizer "vou trocar o passo"? Pelas minhas contas... cinco... e alguns com demasiada resistência.

Quem leu este post tem uma oportunidade de ouro: entender que lá porque é giro e lá porque é entretenimento, não deixa de ser trabalho e é muito mais importante o fundamento do trabalho do que a industria onde se insere. É irrelevante se é gamedev ou metalomecânica.

Falta de ética, mistura de questões pessoais com profissionais, incumprimento de prazos, incumprimento de horários, desresponsabilização pessoal, credibilização de características técnicas em vez de éticas são um passo fácil demais de se dar e tão obviamente errado que acho incrível como é que é consecutivamente dado e firmemente desculpado.

Começo a achar que antes de vir para os gamedev, toda a gente deveria passar por uma industria madura primeiro, com chefias e projectos rígidos e profissionais. Acho que se fizéssemos isso durante dois anos, avançávamos dez anos de repente.

6 comentários:

"C.G." disse...

O problema é quando temos casos, sobretudo dentro da nossa turma universitária, que mesmo que tenhamos bastante tempo para um projecto, é sempre pouco tempo, porque os professores mudam as regras do jogo à ultima da hora, temos -outros- projectos ao mesmo tempo, e temos que andar a fazer directas para entregarmos um projecto a tempo. Tanto os mais preguiçosos como os mais aplicados, todos já passaram pela experiência de trabalhar em cima da hora.

E o que acontece, quando finalmente sentimos o alivio de termos acabado um projecto, e sentimos confiantes e contentes com o trabalho feito? Os professores atiram-nos com comentários depreciativos e notas baixas, porque mesmo que tenhamos dedicado grande parte do tempo ao projecto, e tenhamos dado o nosso melhor, não basta para eles.

"Um professor pede "X" durante a aula.
Manda-se um email com duvidas, e o professor pede "Y" em vez de "X".
10 horas antes da entrega, o professor manda um email a todos a pedir "W".
No fim da apresentação, o professor não está satisfeito, porque queria "Z""

É mais uma razão pela qual prefiro entrar num estágio, e fazer uma pausa nos estudos: porque na universidade, estamos a pagar, para fazer o que os professores querem, conforme os interesses deles.
Num emprego, recebo um salário. Tenho que fazer valer-me pelo salário, pois se me pagam, é porque eu tenho de trabalhar a sério, e demonstrar aos meus superiores que o dinheiro que eles me pagam, não é gasto em vão.

"C.G." disse...

BTW, ainda andas à procura de flores?

Eu tenho aqui uma fotos razoavelmente boas, tiradas do jardim lá da casa dos meus pais. Muitas flores de jardim, e sobretudo orquideas.
Se estiveres interessado, apanha-me no MSN.

Mestre do pito disse...

num emprego recebes salario, mas acredita, que nao se compara a ensino superior.

hoje em dia olho para tras para o ensino superior e penso que andei a coça-los MUITO, mas MUITO MESMO. consegui sempre entregar os trabalhos a tempo, consegui sempre dormir todas as noites, nunca fiz uma directa senão numa lan party, e honestamente, a razão era simples, morava em casa. nao havia bares, jantares, saidas, concertos, festas, etc. basicamnete não havia distrações. nao digo uma joga de vez em quando, ou naquela altura até uma equipa de jogos paralela, a truedimensions, mas de escapes todos precisamos. nao de uma festa que começa às 7, acaba às 6, e nos queima dois ou 3 dias de aulas.

de qualquer modo, nao retiro a culpa aos professores, que apesar de tudo, insistem que nao temos mais nada para fazer do que os seus trabalhos, mas no fundo é exactamente isso que devem supor, pk somos estudantes universitarios por opção. ninguem nos obriga.
é algo que escolhemos. e no fundo é como diz o vlad. se é que nos decidimos colocar num determinado caminho por opção propria, devemos ser nos a dar os passos para chegar ao fim desse caminho. ser empurrado so cansa quem empurra, que para alem de andar a parte dele, ainda tem que nos obrigar a andar a nossa.

agora que escrevo isto, caramba, desculpa lá qq coisinha ò vlad!
eu sei que eu e o diogo nao temos a tua estaleca, mas pá, a gente chega lá!

Vlad disse...

Oh dude, isto não é contigo nem com o Diogo, é com a generalidade do desenvolvimento de jogos.

Tadeu_o_fartador disse...

Ah ! e C.G , sei como te sentes , mas como disse a minha professora anoretica de historia de arte "nao me interessa que tenhas perdido noites de sono se o trabalho nao esta como quero" , e que tambem ha que perceber que no mundo profisional vais lidar com clientes assim ou ate piores, e eles vao querer la saber se te esforcaste muito, querem e resultado :)
Grande post shor vlad !
Ora biba shor mestre do pito !

"C.G." disse...

hoje em dia olho para tras para o ensino superior e penso que andei a coça-los MUITO, mas MUITO MESMO. consegui sempre entregar os trabalhos a tempo, consegui sempre dormir todas as noites, nunca fiz uma directa senão numa lan party, e honestamente, a razão era simples, morava em casa. nao havia bares, jantares, saidas, concertos, festas, etc. basicamnete não havia distrações.


Ahahah, invejo-te! Para mim, basta ter um jogo à minha frente, que distraio-me logo.

Eu vou a festas e bares só para estar com os meus colegas, convívio social. O problema é que a ideia de "convívio social" para 90% dos estudantes, envolve sempre a cerveja. Litros dela. Depois temos pessoas a cair à ria.

É triste, mas passei a primeira metade do meu curso na brincadeira. Consegui fazer as disciplinas todas, mas com uma media baixa. Distraia-me muito com a internet e o roleplay, e estava mais interessada em isolar-me no meu quarto, cá em Aveiro, longe dos estudos e longe dos problemas lá da minha casa e família. No desenho, a mesma coisa, só desenhava fanart e mais nada.

Quando me comecei a aperceber do que é que o design realmente é, e que o que estava a fazer não me ia levar a lado nenhum... Não vou dizer que foi como uma estalada repentina, mas foi como se alguém me fosse dando pontapés ao longo dos meses.

De volta ao tópico do Vlad, e a falar sobre os videojogos. Acho que o problema é a mania de anunciar "vou fazer um jogo!" a uma comunidade inteira, e depois nada acontece. Eu também tinha dito que ia fazer um jogo em flash, mas decidi deixa-lo para outra altura, como um hobby, e me dedicar ao desenho antes de mais nada. Não é um projecto para ser comercial nem nada, apenas uma brincadeira minha.

Acho que se alguém decide que quer fazer um jogo, tem de ser discreto, e não andar por ai a anuncia-lo a sete ventos. Só quando finalmente tiveres provas de que o jogo pode se tornar numa realidade (demo screenshots, concept art, etc etc), é que podes anunciar o projecto. Dás às pessoas a prova de que estás a seguir em frente.
O problema é manter o passo D:
(not your problem, of course~)

Ia dizer mais coisas, mas um dos ultimos posts do Spoing já fala sobre isto (a questão dos jogos comerciais, do publico, etc)

Cá em Portugal, estamos presos com este tipo de mentalidade "faço mais tarde", ou empurrar as responsabilidades para outros. O governo e a atitude deles não ajuda, nem a televisão ou os jornais, sempre a dar mais importância às noticias negativas, do que as positivas. Fazem isto, e dizem que é porque "se vende mais". Será que é mesmo isto que o Português quer, ou é apenas porque a televisão o disse?

Tantos os pais como os professores não se podem limitar apenas a conteúdos teóricos, é preciso educar os mais novos a serem responsáveis. Mas nada disto adiante quando os próprios pais ou professores não dão o exemplo. E ficamos sempre presos neste ciclo viciante.